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Sobre os manifestos

Confesso que nunca fui muito ligada a política, nem gostava muito das aulas de sociologia no colégio. Meu pai não gostava nada de ouvir quando eu dizia que detestava política e seus derivados, mas sempre falava dela pra mim e pro meu irmão, afinal, ele participou de vários movimentos quando mais novo. Eu sempre fui errada em dizer tudo aquilo e em me interessar tão pouco por algo tão importante. Não sou tão burra assim ao ponto de dizer que “política não serve pra nada”, mas também nunca fui das mais engajadas. Gosto de conversar sobre esses assuntos “polêmicos”, o problema é que as pessoas sempre acham que isso tem que virar discusão e bate-boca e só de pensar nisso, me cansa. Desde que defendi meu gênero de mulher em uma aula de filosofia contra um idiota na sala de aula, que dizia que “mulher tem que esquentar a barriga no fogão e esfriar no tanque”, eu meio que traumatizei de todas essas situações bate-boca. Acho que a maioria das pessoas não está preparada para dialogar sobre assuntos tão importantes.

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Assédio verbal, você já ouviu hoje?

Hoje no Brasil existem 6 milhões de mulheres a mais que homens de acordo com pesquisa do IBGE, mas mesmo sendo a maioria presente nas ruas e locais públicos, este fato não faz com que certas ações sejam evitadas. Temos hoje no país a lei Maria da Penha que visa coibir a violência contra mulher, mas será que só agressões físicas são consideradas agressivas?

Não sei quem lê este blog, mas todas as minhas amigas e colegas de trabalho, qualquer mulher que eu conheço já recebeu algum tipo de cantada na rua, tem mulher que até gosta do “agrado” e acha que “aumenta o ego”, por mais estranho que eu ache isso. Mas enquanto tem homens que apenas viram o rosto para encarar, existem alguns malucos que insistem em falar coisas imundas e de extremo mal gosto. Isso aconteceu comigo mais de uma vez já, e depois que passa eu me sinto mal. Seria minha roupa? Meu jeito de andar? O que eu fiz para que esta criatura monstruosa do sexo masculino interpretasse que ele tem liberdade para me tratar desta maneira?

Encontrei uma mulher no mundo que se incomoda com isso tanto quanto eu, ela é Sofie Peeters, de 25 anos e mora em Bruxelas, capital da Bélgica. Ela fez um documentário como trabalho final do seu curso de cinema chamado “Femme de la rue” (“Mulher da rua”) e com câmera e microfones escondidos ela gravou os insultos que sofre nas ruas da cidade.”Nós mulheres somos atormentadas todos os dias, e não acho que seja certo deixar isso pra lá e tentar se acostumar”, acredita a universitária, e nisso eu também acredito.

Uma pesquisa citada pela New Statesman perguntou em alguns países quão seguros os homens e as mulheres se sentem ao caminhar sozinhos na rua durante a noite e dos 143 países pesquisados em TODOS as mulheres são as que se sentem mais inseguras. Na Nova Zelândia 85% dos homens dizem se sentir seguros, enquanto somente 50% das mulheres afirmam a mesma coisa. Na Geórgia é onde os índices são mais próximos: 90% das mulheres e 93% dos homens se sentem seguros. No Brasil, os números são de 40% das mulheres e 57% dos homens.

Mulheres sofrem quase todos os dias assédio verbal. Por mais que não seja um ato tão grave quanto uma agressão física, que é crime no Brasil, esse tipo de “violência” é a mais comum entre as mulheres e não concordo que tenhamos que deixar passar em branco. Quando a cantada é discreta e bonitinha, ainda releva-se, mas tem cada maluco pelo mundo. Até quando teremos que sentir medo, desconforto ou vergonha nas ruas?

Assista o documentário “Femme de la rue” (Legendas em Inglês)

Fontes: Revista Samuel
IBGE